01/09/15

Se Você Fosse Minha

Postado por Jader Dalmas |

Zach, o mais arredio dos Sullivan, é mecânico e corredor de pistas de alta velocidade. Suas únicas preocupações são: como gastar seu dinheiro e com que mulher passar a próxima noite... Até que ele recebe a difícil tarefa de cuidar do fi lhote de yorkshire de seu irmão por duas semanas — um total contratempo para um homem como ele.
Mas Zach não tem como negar este favor a Gabe e, muito a contragosto, acaba aceitando cuidar de Ternurinha, a cachorrinha que, para piorar, é um terror e certamente precisa de treinamento.
Heather Linsey não acreditava que teria de treinar o fi lhote do arrogante Zach Sullivan. De todos os homens que já conhecera, Zach era o mais atrevido. Palavras como arrogante, esnobe, pretensioso cabiam especialmente bem no mecânico da família Sullivan.
Além disso, a beleza e o charme de Zach eram desconcertantes e a atração entre eles, inevitável... Heather estava francamente disposta a negar esse trabalho, mas teve que pensar duas vezes antes de recusar, pois fora indicada por uma grande amiga.
De qualquer forma, ela sabia que podia controlar as investidas de Zach Sullivan, caso ele se mostrasse desrespeitoso. O que ela não sabia é que sua rejeição ia despertar os mais profundos e obstinados desejos no mecânico...

Se você fosse minha é um livro sobre relacionamentos perfeitos com personagens perfeitos a fim de se ter uma família perfeita, com o mesmo estilo dos 50 tons de cinza, mas sem os chicotes. Este livro é um ótimo entretenimento e nos mostra alguns sinais de aumento de afetividade a ponto de tornar um relacionamento firme mesmo que os personagens não o admitam.

Para quem gosta de livros sobre relacionamentos e histórias românticas com enfase em voltar a amar novamente, este é o livro ideal, pois não somente fala sobre protagonistas que já não acreditam em amor, mas sim sobre duas pessoas que mesmo nesta condição e não querendo se permitir amar, acabam caindo nas garras da felicidade.

O que mais me chamou atenção no livro foi o desenvolvimento desse nicho específico de romance com milionário, lindos e conquistadores que fariam de tudo para ficar com a mocinha, assim creio que em pouco tempo também teremos executivas milionárias, gostosas e viciadas em sexo que gostariam de ficar com os mocinhos, voltando foco também para o público masculino.

Em suma, o livro é muito interessante e vale a leitura, pois muitas risadas e expectativas podem acompanhar sua leitura e transformar seu tempo em prazer, contudo para quem já costuma ler este tipo de livro, o enredo pode se tornar um pouco cansativo e similar a outros livros e autores.

10/08/15

Uma Odisseia no Espaço 2001

Postado por Jader Dalmas |

No alvorecer da humanidade, a fome e os predadores já ameaçavam de extinção a incipiente espécie humana. Até que a chegada de um objeto impossível, além da compreensão das mentes limitadas do homem pré-histórico, prenunciasse o caminho da evolução. Milhões de anos depois, a descoberta de um enigmático monolito soterrado na Lua deixa os cientistas perplexos. Para investigar esse mistério, a Terra envia para o espaço uma nave tripulada por uma equipe altamente treinada, assistida por um computador autoconsciente. Do passado distante ao ano de 2001, da África a Júpiter, dos homens-macacos à inteligência artificial HAL 9000, penetre a visão de um futuro que poderia ter sido, uma sofisticada alegoria sobre a história do mundo idealizada pela mente brilhante de Arthur C. Clarke e imortalizada nas telas do cinema por Stanley Kubrick.

Uma odisseia no espaço 2001 é um livro de ficção sobre a exploração do espaço e a integração e dependência robótica e tecnológica dos equipamentos envolvidos em uma viagem espacial. Além disso, o livro é dividido em partes que mostram a evolução de uma civilização que passa a ter o conhecimento de uma civilização mais velha e acaba por evoluir na busca de civilizações mais antigas e dos rastros por estas deixado para que outras civilizações fossem identificadas. Resumos de outros livros os quais foram usados como base para a escrita deste livro explicam muito sobre a evolução e o tema cíclico desta odisseia, que por fim tem a exploração do nosso passado, mas pode servir como ajuda para um futuro de uma outra civilização.

Para quem gosta de livros sobre ficção científica, este é ideal, uma vez que conta a evolução das civilizações e o modo cíclico que pode ser empregado para explicar o desenvolvimento, exploração e contato com outras civilizações que as incentivam também a evoluir, mas sem saber que a civilização que os ajudou pode já ter sido extinta.

O que mais me chamou atenção no livro foi o modo como o autor trabalhou a divisão dos livros, pois a base para a criação da odisseia foi um material muito mais desenvolvido para justificar o final e não a inspiração para a odisseia.

Em suma, este é um livro de ficção científica o qual enozará muitas mentes com seu modelo tanto de concepção como o de passar o conhecimento cíclico de civilizações exemplificando como seria o nosso ciclo de evolução. Assim, a divisão do livro contribui para a evolução e exploração espacial, tendo outros livros que foram a inspiração deste que complementam com o contato com civilizações antigas e novas.

Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição. Quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado 'Coração de Tinta'. Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo e preferiu instalar-se numa aldeia abandonada. Desse lugar funesto, comanda uma gangue de brutamontes que espalham o terror pela região, praticando roubos e assassinatos. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer de Coração de tinta um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente sequestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.

Mo é um 'médico de livros', um restaurador de obras, mas também tem o poder que todos nós gostaríamos de ter, ele consegue transformar em realidade tudo o que ele lê em voz alta. Mas esse poder maravilhoso tem seus contratempos, cada vez que ele traz algo de um livro, alguma coisa do nosso mundo some. Pode ser um lápis, um botão, ou então dois gatos e uma pessoa. Por isso, Mo evita ler em voz alta. 

Com vários personagens cativantes e de leitura fácil, Coração de Tinta rapidamente tomou um lugar na minha estante de favoritos. A história se passa no nosso mundo, com pitadas de fantasia, o que torna tudo mais possível e dá um sabor a mais na leitura. 

Ele é o primeiro de uma trilogia do Mundo de Tinta, escrito por Cornélia Funke, e cada capítulo começa com trechos de clássicos da literatura internacional e desenhos relacionados ao capítulo. O que mais me chama atenção é que ele tem uma história completamente fechada, podendo ser lido separadamente, caso você não tenha vontade de mais um livro de continuação. Mas aviso, você vai querer saber o que acontece depois da história!

Sobre a edição, devo dizer que tenho a minha à dez anos e agora que ela começou a amarelar, o que já diz muito sobre a qualidade das páginas. Outro destaque é essa capa maravilhosa, toda inspirada em iluminuras, bem resistente, que até hoje não desbotou ou descascou, apesar de eu ter lido inúmeras vezes. Em suma, de ótima qualidade =)

Sneak Peek: 


  • 1. Um estranho na noite

Chovia naquela noite, uma chuvinha fina e murmurante. Ainda depois de muitos anos, bastava Meggie fechar os olhos e ela podia ouvi-la novamente, como se minúsculos dedinhos estivessem batendo em sua janela. Um cão latia em algum lugar na escuridão e, por mais que se virasse de um lado para o outro, Meggie não conseguia dormir.
O livro que ela começara a ler estava debaixo do travesseiro. Cutucava o ouvido dela com a ponta da capa, como se quisesse chamá-la de volta para suas páginas. "Oh, deve ser mesmo muito confortável dormir com uma coisa dura e pontuda debaixo da cabeça", dissera seu pai na primeira vez em que encontrara um volume sob o travesseiro dela. "Confesse, à noite ele sussurra histórias no seu ouvido." "Às vezes, sim!", respondera Meggie. "Mas só funciona com crianças." Em troca, Mo lhe dera um beliscão no nariz. Mo. Meggie nunca chamara o pai de outra maneira.
Naquela noite, em que tanta coisa começou e tanta coisa mudou para sempre, um dos livros preferidos de Meggie estava debaixo de seu travesseiro. Como a chuva não a deixava dormir, ela se sentou, esfregou os olhos e pegou o livro. As páginas farfalharam cheias de promessas quando ela o abriu. Meggie achava que esses primeiros sussurros soavam de maneira diferente em cada livro, conforme ela soubesse ou não o que ele lhe contaria. Mas agora era preciso providenciar luz. Havia uma caixa de fósforos escondida na gaveta do criado-mudo. Mo a proibira de acender velas à noite. Ele não gostava de fogo. "O fogo devora os livros", ele sempre dizia, mas afinal de contas ela tinha doze anos e podia muito bem tomar conta de algumas chamas. Meggie adorava ler à luz de velas. Ela havia posto três pequenas lanternas e três castiçais no batente da janela. E estava justamente encostando o palito de fósforo aceso num dos pavios já queimados quando ouviu os passos lá fora. Assustada, Meggie apagou o fogo com um sopro - como ela ainda lembrava nitidamente depois de muitos anos -, ajoelhou-se em frente à janela molhada pela chuva e olhou para fora. Foi então que ela o viu.
A chuva dava à escuridão um tom esbranquiçado, e o estranho quase não passava de uma sombra. Somente seu rosto, virado na direção de Meggie, brilhava lá embaixo. Os cabelos estavam grudados em sua testa molhada. A chuva o encharcava, mas ele parecia não se importar. Estava imóvel, os braços em volta do peito, como se dessa maneira pudesse se aquecer pelo menos um pouco. Assim, ele olhava para a casa de Meggie.
"Preciso acordar Mo!", Meggie pensou. Mas continuou ali sentada, com o coração aos pulos, os olhos fixos na noite, como se o estranho a tivesse contagiado com a sua imobilidade. De repente ele virou a cabeça e Meggie teve a impressão de que olhava diretamente em seus olhos. Ela pulou da cama tão afoita que o livro aberto caiu no chão. Descalça, saiu correndo pelo corredor escuro. Estava frio na velha casa, embora já fosse final de maio.
A luz do quarto de Mo estava acesa. Era comum ele ficar lendo até altas horas da noite. Meggie herdara do pai a paixão pelos livros. Quando ela tinha um sonho ruim e ia se refugiar junto dele, não havia nada melhor para fazê-la adormecer do que a respiração calma de Mo ao seu lado virando as páginas de um livro. Nada espantava mais rápido os sonhos ruins do que o barulho das folhas impressas.
Mas a figura na frente da casa não era um sonho.
O livro que Mo estava lendo naquela noite tinha uma capa de pano azul-claro. Também disso Meggie se lembraria mais tarde. Quantas coisas insignificantes ficam gravadas na memória!
- Mo, tem alguém lá fora!
Seu pai ergueu a cabeça e olhou para ela com uma expressão ausente, como sempre fazia quando ela o interrompia na leitura. Sempre demorava alguns instantes até que ele voltasse inteiramente do outro mundo, do labirinto das letras.
- Tem alguém aqui? Você tem certeza?
- Tenho. Ele está olhando para a nossa casa.
Mo pôs o livro de lado.
- O que você leu antes de dormir? O médico e o monstro?
Meggie franziu a testa.
- Mo, por favor! Venha comigo.
Ele não estava acreditando, mas foi atrás dela. Meggie o puxava com tanta impaciência que ele deu uma topada com o dedão do pé numa pilha de livros. E no que mais poderia ser? Havia livros espalhados por toda a casa. Eles não ficavam apenas nas estantes, como na casa das outras pessoas. Não, ali eles se empilhavam debaixo das mesas, em cima das cadeiras, nos cantos dos quartos. Havia livros na cozinha e no banheiro, em cima da televisão e dentro do guarda-roupa, pilhas pequenas, pilhas altas, livros grossos e finos, velhos e novos... livros. Eles acolhiam Meggie de páginas abertas na mesa do café-da-manhã, espantavam o tédio nos dias cinzentos - e de vez em quando alguém tropeçava neles.
- Ele está plantado de pé ali fora! - sussurrou Meggie enquanto puxava Mo para dentro do quarto.
- Ele tem uma cara peluda? Se tiver, pode ser um lobisomem.
- Pare! - Meggie olhou para o pai com uma expressão séria, embora as brincadeiras dele espantassem seu medo. Ela mesma quase já não acreditava mais na figura lá fora na chuva... até ajoelhar-se de novo diante da janela. - Ali! Está vendo? - ela cochichou.
Mo olhou para fora através das gotas de chuva que continuavam a escorrer no vidro, e não disse nada.
- Você não jurou que aqui nunca viria um ladrão, porque não há nada para roubar? - sussurrou Meggie.
- Não é um ladrão - Mo respondeu, mas estava com uma expressão tão séria quando se afastou da janela que o coração de Meggie começou a bater ainda mais depressa. - Vá para a cama, Meggie. A visita é para mim.
E então Mo já não estava mais no quarto - antes mesmo que Meggie pudesse ter perguntado que visita, por tudo neste mundo, podia ser aquela para aparecer daquele jeito no meio da noite. Aflita, ela foi atrás dele, no corredor ouviu-o soltar a corrente da porta e, quando chegou ao vestíbulo, Meggie viu o pai parado em frente à porta aberta.
A noite escura e úmida penetrou na casa, e o barulho da chuva soou alto, ameaçador.
- Dedo Empoeirado! - exclamou Mo para a escuridão. - É você?
Dedo Empoeirado? Que nome era aquele? Meggie não conseguia se lembrar de tê-lo ouvido alguma vez, mas assim mesmo lhe parecia familiar, como uma lembrança muito antiga que não quer tomar forma definida.
Por alguns instantes, tudo permaneceu quieto lá fora. Somente a chuva caía, murmurando e sussurrando, como se de repente a noite tivesse adquirido voz. Então Meggie ouviu passos se aproximarem da casa, e o homem que estava no pátio emergiu da escuridão. O longo sobretudo que ele vestia estava grudado em suas pernas, encharcado de chuva, e, quando o estranho apareceu na luz da frente da casa, por uma fração de segundo Meggie pensou ter visto sobre seus ombros uma cabecinha peluda meter o nariz para fora da mochila e depois se enfiar bem depressa dentro dela novamente.
Dedo Empoeirado passou a manga no rosto molhado e estendeu a mão para Mo.
- Como vai, Língua Encantada? - ele perguntou. - Há quanto tempo!
Mo apertou a mão estendida, com hesitação.

03/07/15

O Nome do Vento

Postado por May Cyrne |

Ninguém sabe ao certo quem é o herói ou o vilão desse fascinante universo criado por Patrick Rothfuss. Na realidade, essas duas figuras se concentram em Kote, um homem enigmático que se esconde sob a identidade de proprietário da hospedaria Marco do Percurso.

Da infância numa trupe de artistas itinerantes, passando pelos anos vividos numa cidade hostil e pelo esforço para ingressar na escola de magia, O nome do vento acompanha a trajetória de Kote e as duas forças que movem sua vida: o desejo de aprender o mistério por trás da arte de nomear as coisas e a necessidade de reunir informações sobre o Chandriano - os lendários demônios que assassinaram sua família no passado.

Quando esses seres do mal reaparecem na cidade, um cronista suspeita de que o misterioso Kote seja o personagem principal de diversas histórias que rondam a região e decide aproximar-se dele para descobrir a verdade. 

Pouco a pouco, a história de Kote vai sendo revelada, assim como sua multifacetada personalidade - notório mago, esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico magistral, assassino infame. 

Nesta provocante narrativa, o leitor é transportado para um mundo fantástico, repleto de mitos e seres fabulosos, heróis e vilões, ladrões e trovadores, amor e ódio, paixão e vingança. 

Mais do que a trama bem construída e os personagens cativantes, o que torna O nome do vento uma obra tão especial - que levou Patrick Rothfuss ao topo da lista de mais vendidos do The New York Times - é sua capacidade de encantar leitores de todas as idades.


Um livro apaixonante, que conta a história de Kvothe, um jovem prodígio que acabou se tornando uma lenda em seu próprio tempo. A narrativa leva o conceito de uma história dentro de outra, em que temos uma estória de um homem que conta sua história de vida à um cronista, de forma poética, em um mundo onde a magia e mistério não foram completamente aniquilados da realidade, mas participam de forma sutil, quase despercebida, na vida das pessoas. 

Programado para ser uma trilogia, O Nome do Vento é o primeiro livro das Crônicas do Matador do Rei, e conta o início da vida de kvothe e seu ingresso prematuro na Universidade, um lugar onde os mais inteligentes e os mais ricos vão para estudar e aprender as artes da Alquimia, Medicina e a oculta arte de Nomear. Além de Kvothe, acabamos criando carinho por outros personagens, como a misteriosa e adorável Auri, que recentemente ganhou um livro só dela, A Música do Silêncio

Sou apaixonada pela capa, e uma das coisas que me faz escolher um livro é a edição, que nesse caso é bem cuidadosa e durável, com páginas costuradas e letras não muito pequenas, bom para os que têm dificuldades de visão. 

Indico a todos que curtem um universo mais mágico, que leram e gostaram de clássicos de fantasia adulta, como Senhor dos Anéis. Tem seus momentos luminosos, mas em sua maior parte é uma história mais sombria e misteriosa mesmo. Recomendo por ser um dos meus livros favoritos de ficção. 

Um pedacinho para dar o gosto:


  • Um silêncio em três partes
Noite outra vez. A Pousada Marco do Percurso estava em silêncio, e era um silêncio em três partes.

A parte mais óbvia era uma quietude oca e repleta de ecos, feita das coisas que faltavam. Se houvesse vento, ele sussurraria por entre as árvores, faria a pousada ranger em suas juntas e sopraria o silêncio estrada afora, como folhas de outono arrastadas. Se houvesse uma multidão, ou pelo menos um punhado de homens na pousada, eles encheriam o silêncio de conversa e riso, do burburinho e do clamor esperados de uma casa em que se bebe nas horas sombrias da noite. Se houvesse música... Mas não, é claro que não havia música. Na verdade, não havia nenhuma dessas coisas e por isso o silêncio persistia. 

Dentro da pousada, uma dupla de homens se encolhia num canto do bar. Os dois bebiam com serena determinação, evitando discussões sérias ou notícias inquietantes. Com isso, acrescentavam um silêncio pequeno e soturno ao maior e mais oco. Ele formava uma espécie de amálgama, um contraponto. 

O terceiro silêncio não era fácil de notar. Se você passasse uma hora escutando, talvez começasse a senti-lo no assoalho de madeira sob os pés e nos barris toscos e lascados atrás do bar. Ele estava no peso da lareira de pedras negras, que conservava o calor de um fogo há muito extinto. Estava no lento vaivém de uma toalha de linho branco esfregada nos veios da madeira do bar. E estava nas mãos do homem ali postado, que polia um pedaço de mogno já reluzente à luz do lampião. 

O homem tinha cabelos ruivos de verdade, vermelhos como a chama. Seus olhos eram escuros e distantes, e ele se movia com a segurança sutil de quem conhece muitas coisas. 

Dele era a Pousada Marco do Percurso, como dele era também o terceiro silêncio. Era apropriado que assim fosse, pois esse era o maior silêncio dos três, englobando os outros dentro de si. Era profundo e amplo como o fim do outono. Pesado como um pedregulho alisado pelo rio. Era o som paciente – som de flor colhida – do homem que espera a morte.

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